O recente anúncio da administração do presidente Donald Trump sobre o endurecimento na análise de pedidos de green card baseados em casamento inaugura uma nova fase de maior fiscalização nos processos de imigração familiar nos Estados Unidos.
As medidas foram divulgadas pelo Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) e vêm sendo implementadas gradualmente pelo Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS). Entre as mudanças estão investigações mais detalhadas sobre a convivência do casal, análise aprofundada de documentos financeiros compartilhados, entrevistas mais longas e a possibilidade de reabertura de processos em caso de inconsistências.
Embora o governo afirme que o objetivo é combater fraudes e preservar a integridade do sistema migratório, especialistas alertam que o aumento do rigor pode afetar também casais legítimos.
Segundo o advogado de imigração Murtaz Navsariwala, a medida apenas formaliza uma tendência que já vinha sendo observada na prática.
“Nos últimos anos, observamos um crescimento significativo no número de pedidos de evidência adicional e entrevistas mais detalhadas em processos baseados em casamento. O anúncio apenas consolida um movimento de maior fiscalização que já vinha sendo aplicado de forma gradual”, afirma.
Casamento não garante green card automaticamente
Dados públicos do Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos indicam que os processos familiares estão entre as principais vias legais de imigração permanente para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, relatórios federais mostram um aumento no uso de mecanismos investigativos para verificar a autenticidade das relações.
Nesse contexto, especialistas destacam a importância de combater um equívoco comum: a ideia de que o casamento com um cidadão americano garante automaticamente a residência permanente.
“O casamento com cidadão americano nunca garantiu, por si só, o green card. O governo analisa a boa-fé da relação, a consistência documental e a coerência das informações apresentadas. Com o ambiente regulatório mais rigoroso, qualquer inconsistência pode resultar em atrasos, pedidos adicionais de prova ou até na negativa do caso”, explica Navsariwala.
Impactos também atingem visto de noivo (K-1)
O aumento da fiscalização também afeta o visto K-1, destinado a noivos estrangeiros de cidadãos americanos.
Após a aprovação inicial e a entrada nos Estados Unidos, o casal precisa formalizar o casamento dentro de 90 dias e, posteriormente, solicitar o Ajuste de Status para residência permanente.
Segundo o advogado, falhas em qualquer etapa podem gerar impactos relevantes no histórico migratório do solicitante.
“O que vemos agora é um processo mais técnico e criterioso. Casais que vivem separados por motivos profissionais, que não possuem histórico financeiro amplamente integrado ou que apresentam dinâmicas familiares não tradicionais podem enfrentar questionamentos adicionais. Isso não impede a aprovação, mas exige organização estratégica da documentação e preparação adequada para as entrevistas”, afirma.
Maior rigor pode aumentar imprevisibilidade
Especialistas também alertam que o aumento do poder discricionário nas análises pode gerar maior imprevisibilidade nos resultados.
Para Navsariwala, planejamento prévio e orientação jurídica especializada tornam-se ainda mais importantes.
“Cada caso possui particularidades. Histórico migratório anterior, entradas passadas nos Estados Unidos, períodos de permanência e até pequenas divergências em formulários podem ganhar peso maior em um ambiente de fiscalização ampliada.”
Ele ressalta que, embora o objetivo declarado do governo seja reforçar o combate a fraudes, o efeito prático é a elevação do nível de exigência para todos os solicitantes.
“Em um cenário de maior escrutínio, informação correta e estratégia jurídica bem estruturada ajudam a mitigar riscos e oferecem mais segurança ao casal durante todo o processo.”

