O avanço da hanseníase no Maranhão voltou ao centro do debate nesta quinta-feira (8), durante o programa Café com Notícias, apresentado por Elda Borges. O estado lidera o ranking nacional de incidência da doença — um dado que expõe problemas estruturais, como desinformação, diagnóstico tardio e a falta de continuidade nas políticas públicas de saúde.

Convidada para o debate, a especialista Cíntia Agostino apontou que o desconhecimento da população é um dos principais fatores por trás dos números elevados. Segundo ela, a falsa percepção de que a hanseníase teria sido erradicada contribui para que os sintomas sejam ignorados e o diagnóstico ocorra tardiamente.

“Há estudos que indicam que essa alta incidência está relacionada à falta de informação. Muitas pessoas ainda acham que a hanseníase não existe mais. Isso atrasa o diagnóstico e compromete o tratamento”, afirmou.

Sintomas passam despercebidos

Cíntia explicou que o início da doença costuma ser silencioso, o que dificulta a identificação. As manifestações iniciais aparecem, na maioria das vezes, como manchas na pele sem dor ou coceira, facilmente confundidas com alergias ou problemas dermatológicos simples.

Nos casos em que há comprometimento dos nervos, sintomas como formigamento nas mãos e nos pés acabam sendo atribuídos a outras condições clínicas, o que prolonga ainda mais o tempo até o diagnóstico correto.

A especialista também esclareceu um dos principais mitos em torno da hanseníase: a forma de transmissão. Segundo ela, a doença não é passada por contato físico casual, como abraços ou apertos de mão. A transmissão ocorre por meio de gotículas respiratórias, exigindo convivência prolongada, geralmente no ambiente doméstico.

Outro ponto destacado foi que, após o início do tratamento, o paciente deixa de transmitir a doença em poucos dias — um fator decisivo para o controle da cadeia de contágio.

Tratamento existe, mas abandono é frequente

Apesar de o tratamento ser gratuito e oferecido pelo SUS, por meio da Poliquimioterapia (PQT), o abandono ainda é comum. Os efeitos colaterais dos medicamentos levam muitos pacientes a interromper o protocolo, o que obriga o reinício do tratamento e contribui para o aumento dos chamados casos de retratamento no estado.

Embora a hanseníase tenha cura, as sequelas neurológicas e deformidades causadas pelo diagnóstico tardio são irreversíveis. “O tratamento interrompe a progressão da doença, mas não recupera nervos ou estruturas já danificadas”, explicou Cíntia.

Ela citou o trabalho de reabilitação realizado no Hospital Aquiles Lisboa, que oferece adaptações em calçados e utensílios para garantir mais autonomia aos pacientes com sequelas.

A entrevista terminou com um alerta direto à população: manchas claras na pele associadas à perda de sensibilidade ao calor, ao frio ou à dor não devem ser ignoradas. O debate reforçou a urgência de ampliar ações de informação, prevenção e diagnóstico precoce — um desafio que ainda exige resposta efetiva do poder público e maior engajamento social.