A escalada no preço do petróleo após o início da guerra contra o Irã provocou preocupação dentro do governo de Donald Trump. Assessores da Casa Branca admitem que houve surpresa com a intensidade e a duração da reação do mercado internacional, que fez o barril disparar e elevou rapidamente o preço da gasolina nos Estados Unidos.

Segundo pessoas familiarizadas com as discussões internas ouvidas pela CNN, auxiliares do presidente já esperavam alguma alta nos primeiros dias do conflito. No entanto, o nível alcançado pelo petróleo e a persistência da pressão nos preços pegou a equipe econômica desprevenida.

Antes do pronunciamento de Trump na segunda-feira (9), o barril chegou a se aproximar de US$ 120, movimento que representou uma das maiores variações diárias do mercado desde 1988. Após o discurso do presidente — no qual afirmou que a guerra contra o Irã estava “praticamente encerrada” — o preço recuou e fechou perto de US$ 87.

Diante da escalada e do aumento da gasolina nos EUA, integrantes do governo iniciaram uma corrida para acalmar investidores e encontrar alternativas capazes de conter a pressão sobre o mercado de energia.

Especialistas, porém, avaliam que a margem de ação da Casa Branca é limitada.

“É difícil ver algo além de pressão contínua de alta nos preços”, afirmou o analista de energia Neil Atkinson, ex-chefe da divisão de mercados de petróleo da Agência Internacional de Energia. “As pessoas vão sentir isso diretamente na bomba de combustível.”

Estratégia para acalmar o mercado

Durante o fim de semana e ao longo da segunda-feira, autoridades americanas discutiram com urgência um pacote de medidas para reduzir o impacto do petróleo sobre os preços da gasolina.

Entre as alternativas avaliadas estavam desde ações regulatórias mais simples — como flexibilizar restrições ao transporte de petróleo dentro dos EUA — até iniciativas mais agressivas, incluindo interferência direta no comércio global de petróleo.

No fim, a principal aposta foi o próprio pronunciamento de Trump, que buscou sinalizar uma desescalada do conflito.

A reação do mercado foi imediata. No Brasil, por exemplo, o dólar comercial fechou o dia em R$ 5,165, queda de 1,52%, atingindo o menor nível desde 27 de fevereiro, antes do início dos bombardeios ao Irã.

Estreito de Ormuz trava oferta global

Apesar do alívio momentâneo, um dos principais fatores de pressão continua ativo: o bloqueio quase total do tráfego no Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.

Desde os bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, companhias marítimas têm evitado enviar navios pela região, temendo ataques iranianos. O resultado foi um acúmulo de petroleiros e um choque de oferta que impulsionou os preços globais.

Os níveis registrados no início da semana só haviam sido vistos anteriormente no início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022.

Gasolina vira preocupação eleitoral

Nos Estados Unidos, o impacto chegou rapidamente ao consumidor. O preço médio da gasolina subiu 51 centavos por galão em apenas uma semana, gerando preocupação dentro do governo.

A alta ameaça um dos principais argumentos econômicos que os republicanos pretendiam usar nas eleições legislativas de meio de mandato, previstas para novembro.

A ideia inicial da Casa Branca era destacar a queda no preço dos combustíveis como símbolo da recuperação econômica.

Com o petróleo superando US$ 100 no fim de semana, porém, o senso de urgência aumentou entre integrantes do governo.

Busca por soluções

O secretário de Energia, Chris Wright, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o secretário do Interior, Doug Burgum, passaram a liderar a elaboração de novas alternativas.

Publicamente, Wright tem tentado reduzir a preocupação. Em entrevista à CNN no domingo, ele atribuiu parte da alta à especulação do mercado e afirmou que o tráfego no Estreito de Ormuz deve ser retomado em breve.

“Acho que não estamos muito longe de ver um retorno mais regular do tráfego de navios. É questão de semanas, não de meses”, disse.

Trump também minimizou o impacto do conflito sobre os combustíveis. Em publicação na rede Truth Social, afirmou que a alta é “um preço muito pequeno a pagar”.

Opções limitadas

Nos bastidores, entretanto, integrantes do governo buscam alternativas para conter uma crise energética que pode afetar diretamente a economia americana.

Entre as medidas discutidas estão:

  • flexibilização de regras da Lei Jones, para facilitar o transporte interno de petróleo;

  • redução de regulações que impactam o mercado de combustíveis;

  • restrições às exportações de petróleo dos EUA;

  • controles de preço;

  • intervenção do Tesouro nos mercados futuros de petróleo.

Outra possibilidade analisada é o uso da Reserva Estratégica de Petróleo dos Estados Unidos, embora exista resistência política à medida. Trump criticou duramente o ex-presidente Joe Biden por utilizar a reserva em 2022 para tentar conter a alta dos combustíveis.

G7 e outras alternativas

Países do G7 também discutiram a possibilidade de liberar estoques estratégicos de petróleo de forma coordenada para aliviar a oferta global. No entanto, não houve decisão imediata.

Autoridades americanas chegaram a estudar oferecer até US$ 20 bilhões em seguros para navios que aceitassem atravessar o Estreito de Ormuz — iniciativa que não avançou.

Outra alternativa considerada é fornecer escolta militar a petroleiros na região. Trump chegou a afirmar em entrevista à CBS News que o governo estuda até assumir o controle do estreito.

Especialistas, porém, afirmam que nenhuma dessas medidas substitui o impacto da interrupção da principal rota de petróleo do mundo.

“Mesmo que o navio esteja segurado, ninguém quer vê-lo afundar”, disse Tobin Marcus, chefe de política da consultoria Wolfe Research.

Fim da guerra é a única solução clara

Analistas do setor avaliam que as opções do governo são limitadas enquanto o fluxo de petróleo permanecer interrompido.

Estima-se que até 20 milhões de barris por dia normalmente passam pelo Estreito de Ormuz — volume difícil de substituir rapidamente no mercado internacional.

Para especialistas, a única solução realmente eficaz seria o fim do conflito.

“As alternativas que o governo tem, além de encerrar a guerra, são bastante limitadas”, afirmou Neil Atkinson. “O mercado global de petróleo está extremamente apertado.”