Por Dra. Andréa Ladislau / Psicanalista
Existem algumas frases que precisamos normalizar para ser feliz. E, talvez, as principais sejam: “Não quero.”; “Não vou.”; “Entendi, mas não concordo.”; “Sim, eu entendi, mas eu discordo.”; “Sim, essa é a sua opinião, mas não é a minha”; “Ok, gosto disso mas de outra forma”. Verbalizar essas frases sem precisar se justificar é, sem dúvida, um ato de autocuidado. Afinal, nem sempre dizer “Sim” para tudo é sinal de maturidade. Ás vezes, é justamente o contrário.
Porém, dizer “Não” é tarefa complicada para muitas pessoas. É um verdadeiro treino que não significa falta de empatia, educação ou amor. É aprender a impor limites. E são, justamente esses limites que protegem e lhe autorizam a ser mais verdadeiro. No entanto, não é tão simples. O principal é entender porque nos comportamos dessa forma e apresentamos tanta resistência no “Não”.
Responder “Sim” quando tudo em você queria dizer “Não” é mais comum do que parece. E quase nunca acontece por falta de clareza: acontece por medo. Medo de decepcionar, de conflito, de parecer egoísta. Mas limites não afastam quem respeita: eles apenas organizam as relações.
Essa dificuldade raramente é apenas um problema comportamental. Do ponto de vista da neuropsicologia, envolve circuitos cerebrais ligados à ameaça social e ao pertencimento.
O cérebro humano é programado para manter vínculos. Situações que sinalizam possível rejeição ativam a amígdala, responsável pela detecção de perigo, desencadeando respostas fisiológicas de ansiedade, culpa e hipervigilância. Nesses estados, o córtex pré-frontal — área ligada à tomada de decisão e ao autocontrole — tende a funcionar de forma menos eficiente.
Sendo assim, pela teoria do apego, pessoas com padrões de apego ansioso ou inseguro aprendem, desde cedo, que manter o vínculo depende de agradar, ceder ou se adaptar excessivamente. Assim, o “Não” passa a ser vivido como ameaça à relação, e não como um limite saudável.
No entanto, precisamos trabalhar as resistências emocionais e aprender a colocar limites, pois estes exigem autorregulação emocional, tolerância ao desconforto e reestruturação dos aprendizados relacionais. Os limites não são agressão. São organização psíquica. E as relações saudáveis se sustentam melhor quando há diferenciação, não fusão. Elas duram mais e se tornam mais saudáveis quando o respeito à nossa opinião e desejos são levados em consideração.
Enfim, basta de desgastes emocionais e físicos por falta de impor seus desejos. Chega de guardar emoções e desafios dentro de si, sufocando sua própria existência. Chega de carregar o peso do mundo nas costas, como se fosse sua única responsabilidade. Chega de dizer “SIM” quando, no fundo, quer gritar “NÃO”, respeitando seus próprios limites. Muitos desafios na vida nos levam a assumir um compromisso sagrado conosco, colocando o bem-estar como prioridade máxima, reconhecendo que também merecemos cuidado e atenção. Portanto, comprometer-se a estabelecer limites saudáveis, aprendendo a dizer “NÃO” quando necessário e respeitando as próprias necessidades, ajuda na migração do estado de desgaste para o estado de plenitude.
