O Transtorno do Espectro Autista (TEA) segue em evidência, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil há cerca de 2,3 milhões de pessoas com o diagnóstico da condição, o que representa 1,2% da população. Os homens são maioria entre os diagnosticados, somando aproximadamente 1,4 milhão de casos, enquanto as mulheres são cerca de 1 milhão. De acordo com a especialista Andrea Rodriguez Valero, neuropsicóloga da NeuronUP, startup de terapia e estimulação cognitiva, compreender a complexidade do autismo é essencial para a escolha das intervenções. “O autismo, por ser um espectro, não é linear; ou seja, suas características se manifestam de formas muito diversas em cada pessoa. Por isso, é preciso ter em conta que existem perfis tradicionalmente sub-representados nos critérios-padrão, como é o caso das meninas e mulheres”, afirma.

Nesse cenário, de acordo com ela, a terapia neurocognitiva se destaca por permitir intervenções personalizadas, alinhadas às necessidades específicas de cada paciente. O TEA é caracterizado por alterações no neurodesenvolvimento que impactam a comunicação, a interação social e o comportamento. As intervenções estruturadas e personalizadas são essenciais para o desenvolvimento do paciente e é nesse contexto que a terapia neurocognitiva surge como uma estratégia eficaz, ao trabalhar, de forma sistemática, as habilidades fundamentais para o dia a dia.

A abordagem do tratamento atua na estimulação de funções executivas, cognição social e processamento da informação, com impacto direto na autonomia e nas habilidades adaptativas. Segundo a especialista, essas funções e habilidades podem ser estimuladas e treinadas. “A estimulação cognitiva promove o fortalecimento e a otimização das funções executivas, como planejamento, flexibilidade mental, inibição e memória de trabalho”, aponta. “Além disso, há benefícios importantes na interação social, como o desenvolvimento de habilidades de cognição social, especialmente a teoria da mente – capacidade de entender a si mesmo -, e sua interação com as funções executivas, que favorece as habilidades sociais e comunicativas, impactando positivamente na autoestima e no bem-estar social”, completa.

Na prática clínica, a terapia neurocognitiva pode ser aplicada por meio de atividades estruturadas e ferramentas digitais, que permitem trabalhar diferentes áreas cerebrais envolvidas no comportamento e na aprendizagem. “Com jogos e atividades digitais, é possível estimular e treinar habilidades relacionadas às funções executivas, à cognição social e ao processamento da informação”, explica Andrea.

Os benefícios da abordagem vão além do desempenho cognitivo, refletindo diretamente na rotina dos pacientes e de suas famílias. Entre os principais resultados observados estão melhora da comunicação, maior autonomia funcional, desenvolvimento da autorregulação emocional e fortalecimento da aprendizagem. “Esses ganhos contribuem também para a redução da sobrecarga de cuidadores e para uma melhor inserção social e institucional”, indica.

Para médicos e gestores hospitalares, a incorporação da terapia neurocognitiva representa uma oportunidade estratégica de qualificação da assistência. A neuropsicóloga reforça que o cuidado deve ser integrado e multidisciplinar.  “A abordagem do autismo deve ser combinada e integral, com a estimulação cognitiva aliada a estratégias de comunicação, regulação emocional, habilidades adaptativas e inclusão social, promovendo um enfoque multidimensional ajustado ao perfil de cada indivíduo”, diz.

Além da escolha das ferramentas, a postura profissional também é determinante para o sucesso terapêutico. “No trabalho com pessoas autistas, é essencial ajustar a forma de comunicação, os tempos de resposta e a estrutura das sessões às necessidades individuais”, destaca Andrea. “A atitude do terapeuta deve ser empática, compreensiva e aberta ao estilo de interação do outro”, conclui.

Diante do aumento da demanda por serviços especializados em neurodesenvolvimento, investir em terapias como a neurocognitiva pode ampliar a resolutividade clínica e promover um modelo de cuidado mais humanizado, eficiente e centrado no paciente, alinhado às necessidades contemporâneas do sistema de saúde.