Enquanto muitos trabalhos escolares terminam na sala de aula, estudantes da turma 101 do EJATEC – Técnico em Administração, do Centro de Ensino Joaquim Aroso, da rede estadual de ensino, decidiram fazer da pesquisa um instrumento de preservação da memória coletiva. Por meio do projeto integrador “Entre Redes e Rendas: Memórias e Saberes em Raposa/MA”, os alunos reuniram moradores de diferentes gerações para registrar relatos sobre a história, a cultura e as transformações do município.

Orientado pelos professores Simone, Francisco e Naylanda, o projeto teve como proposta aproximar os estudantes da comunidade, promovendo um diálogo entre gerações e valorizando conhecimentos que, muitas vezes, permanecem apenas na memória de quem viveu diferentes períodos da história de Raposa.

A atividade foi desenvolvida por meio de uma roda de conversa que reuniu moradores convidados para compartilhar experiências pessoais sobre temas como a pesca artesanal, a renda de bilro, o crescimento da cidade, a educação, a saúde e as mudanças sociais ocorridas ao longo das últimas décadas.

Mais do que ouvir histórias, os estudantes assumiram o papel de pesquisadores da própria cidade. Cada pergunta, cada resposta e cada lembrança registrada contribuíram para construir um acervo que ajuda a preservar a memória e fortalecer a identidade cultural de Raposa.

Histórias que atravessam gerações

Entre os relatos que mais chamaram a atenção dos estudantes esteve o de Newton da Silva Reis, aposentado e um dos moradores mais antigos presentes na roda de conversa.

Com riqueza de detalhes, ele recordou sua chegada à Raposa ainda na infância, quando acompanhava pescadores e dava os primeiros passos em um cotidiano profundamente ligado ao mar. Em suas lembranças, descreveu uma época em que a pesca era realizada com linha e tarrafa, antes da consolidação dos currais de pesca, e contou que seu primeiro trabalho era recolher os peixes que caíam durante a atividade dos pescadores.

Estudantes do EJATEC registram memórias e saberes de moradores durante roda de conversa do projeto “Entre Redes e Rendas”, no Centro de Ensino Joaquim Aroso.

Ao revisitar essas memórias, Newton apresentou aos estudantes um retrato da Raposa de décadas atrás, revelando como a comunidade cresceu, recebeu novas famílias e se transformou ao longo do tempo, sem perder sua ligação com a pesca artesanal.

Outro momento marcante da roda de conversa foi o relato sobre a tradição da renda de bilro, uma das principais expressões culturais do município. Uma das participantes relembrou as dificuldades enfrentadas pelas primeiras rendeiras, em um período em que Raposa ainda possuía acesso limitado e praticamente não recebia visitantes.

Segundo o depoimento, mesmo diante das dificuldades, as mulheres mantinham viva a produção artesanal, levando suas peças até São Luís para comercialização. A entrevistada também destacou o orgulho de continuar produzindo renda e de transmitir esse conhecimento a outras pessoas, reforçando que preservar essa tradição significa manter viva uma parte importante da identidade cultural da cidade.

Diferentes olhares sobre a história de Raposa

Ao longo da roda de conversa, cada participante apresentou uma perspectiva particular da história do município.

Participaram da atividade Rosa Souza da Silva, rendeira; Jovelina Borges Damasceno, aposentada; Maria Zuila Veríssimo de Souza, professora aposentada; Maria Lucinete Albuquerque, agente comunitária de saúde; Elias Enoque Vasconcelos, pescador; Felix Marques Moreira, servidor público; Francisca de Sousa da Silva, aposentada; e Newton da Silva Reis, aposentado.

Durante os depoimentos, foram compartilhadas lembranças sobre a chegada de famílias ao município, as dificuldades de deslocamento antes da abertura da estrada, a evolução dos serviços públicos, a emancipação de Raposa, a importância da pesca artesanal, o fortalecimento da renda de bilro e as mudanças percebidas pelos próprios moradores ao longo das décadas.

Cada narrativa contribuiu para formar um mosaico de memórias que ajuda a compreender como a cidade foi construída não apenas por grandes acontecimentos, mas também pelas experiências cotidianas de seus moradores.

Estudantes do EJATEC registram memórias e saberes de moradores durante roda de conversa do projeto “Entre Redes e Rendas”, no Centro de Ensino Joaquim Aroso.

A escola como espaço de preservação da memória

Além de desenvolver habilidades de pesquisa, comunicação e produção de conteúdo, o projeto proporcionou aos estudantes uma experiência de escuta e valorização do patrimônio cultural imaterial.

Ao registrar histórias que tradicionalmente circulavam apenas de forma oral, os alunos contribuíram para preservar lembranças que poderão ser conhecidas pelas futuras gerações, demonstrando que a escola também desempenha um papel fundamental na proteção da memória coletiva.

Mais do que uma atividade acadêmica, o projeto aproximou juventude e comunidade, incentivando os estudantes a reconhecerem o valor das pessoas que ajudaram a construir a identidade de Raposa.

Um projeto construído em várias etapas

O Projeto Integrador foi desenvolvido de forma interdisciplinar, envolvendo diferentes turmas do EJATEC e abordando aspectos fundamentais da identidade de Raposa. As turmas do primeiro ano dividiram a pesquisa em quatro eixos temáticos: a turma 101 dedicou-se à história do município; a turma 100 pesquisou a história da pesca; a turma 100 Anexo desenvolveu estudos sobre o artesanato; e a turma 101 Anexo voltou seu olhar para o turismo local.

Já os estudantes do segundo ano deram continuidade ao trabalho sob uma perspectiva empreendedora. A partir dos conhecimentos produzidos pelas turmas do primeiro ano, elaboraram modelos de negócios inspirados nos potenciais da culinária, do artesanato, da pesca e do turismo, demonstrando como a valorização da cultura e das tradições locais também pode contribuir para o desenvolvimento econômico e sustentável do município.

Comunicação a serviço da cultura

A convite da professora Simone e da equipe do projeto, o Instituto Udes Cruz colaborou com o apoio técnico audiovisual, realizando a captação das imagens e a edição do vídeo produzido durante a atividade.

A parceria permitiu transformar a roda de conversa em um registro audiovisual permanente, ampliando o alcance das histórias compartilhadas pelos moradores e reforçando a importância da união entre educação, cultura e comunicação.

Ao final, o projeto deixa um legado que ultrapassa os limites da sala de aula. As memórias registradas pelos estudantes passam a integrar um importante documento sobre a história de Raposa, preservando experiências, saberes e tradições que continuam dando significado à identidade cultural do município.

“Entre Redes e Rendas” demonstra que ouvir quem viveu a história também é uma forma de construir o futuro.

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