Quadrilhas, apresentações e encontros coletivos fazem parte das festas juninas, mas, para muitas crianças pequenas, esses momentos também podem despertar insegurança, timidez e dificuldade de se afastar dos pais. Situações como subir ao palco, interagir com outras crianças ou permanecer em um ambiente novo mobilizam emoções intensas, especialmente na primeira infância.
Segundo a psicóloga e psicanalista Denise Fleury, esse comportamento está diretamente ligado à forma como a criança constrói seus vínculos afetivos. A chamada ansiedade de separação, comum nessa fase, pode se manifestar como resistência, choro ou retraimento diante de atividades coletivas. Trata-se, segundo a especialista, de uma experiência legítima do desenvolvimento, associada ao medo de perda ou afastamento das figuras de referência.
Em vez de interpretar a timidez como um problema, Denise propõe compreendê-la como parte desse processo. O desafio não é eliminar o desconforto, mas criar condições para que a criança possa atravessá-lo com segurança. A escuta, o acolhimento e o respeito ao tempo de cada criança são fundamentais para que ela construa autonomia sem romper o vínculo.
A literatura infantil pode ser uma aliada nesse percurso. “A literatura infantil ajuda as crianças a nomear sentimentos, elaborar experiências e lidar com a separação, oferecendo caminhos simbólicos para o amadurecimento emocional” . Ao entrar em contato com histórias, a criança encontra formas de reconhecer e processar emoções que ainda não consegue expressar plenamente.
Essa abordagem está presente no livro Benjamin (SemiBreve), em que Denise Fleury transforma a experiência da separação em uma narrativa poética construída por sons, ritmos e metáforas. A obra sugere que o vínculo afetivo não se rompe com a distância, mas se reorganiza — ideia central para momentos em que a criança começa a se inserir em contextos coletivos.
Para famílias e educadores, o período de festas juninas pode ser uma oportunidade de observar e apoiar esse movimento. Pequenos gestos, como preparar a criança para o ambiente, permitir aproximações graduais e validar seus sentimentos, ajudam a transformar a participação em experiências mais seguras e significativas.
“Quando a criança consegue nomear seus afetos, já conquista recursos simbólicos importantes para não ficar refém de seus próprios medos” , afirma a autora.
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