A Polícia Federal (PF) investiga se executivos do Itaú e do Santander tiveram participação no esquema que ocultou a verdadeira situação financeira da Americanas, considerada uma das maiores fraudes corporativas da história do país. A apuração busca esclarecer se representantes das instituições financeiras contribuíram para manter o mecanismo que mascarava o endividamento da varejista, causando prejuízos bilionários a bancos, acionistas e credores.

No centro da investigação está a operação conhecida como risco sacado, modalidade de crédito em que um banco antecipa o pagamento aos fornecedores de uma empresa e passa a ser o credor da operação.

Na prática, a Americanas comprava mercadorias com prazo para pagamento, enquanto o fornecedor recebia antecipadamente por meio de um banco. Depois, a empresa quitava o valor junto à instituição financeira, acrescido de juros. Esse tipo de obrigação deveria ser registrado nos balanços como dívida financeira, mas, segundo as investigações, era contabilizado como dívida com fornecedores, reduzindo artificialmente o nível de endividamento da companhia.

De acordo com a Polícia Federal, há indícios de que executivos do Itaú e do Santander tinham conhecimento desse modelo de contabilização e teriam colaborado para que ele permanecesse oculto. Em razão dessas suspeitas, a PF cumpriu, no fim de junho, mandados de busca e apreensão contra executivos das duas instituições. Um executivo do Bradesco também foi alvo da operação.

Ao autorizar a segunda fase da Operação Disclosure, a 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro afirmou haver indícios de que os bancos “atuaram possivelmente de forma coordenada para ocultar operações financeiras realizadas pela varejista”.

Segundo as investigações, representantes das instituições financeiras teriam desempenhado papel importante para viabilizar e prolongar as irregularidades. A suspeita recai principalmente sobre as chamadas cartas de circularização, documentos enviados pelos bancos às empresas de auditoria para confirmar a existência de operações financeiras.

A PF sustenta que essas cartas omitiriam operações de risco sacado. Caso esses contratos fossem informados corretamente, auditores poderiam identificar divergências entre os registros bancários e os balanços apresentados pela Americanas.

A suposta omissão permitia que a companhia continuasse registrando parte de sua dívida como obrigação com fornecedores, transmitindo ao mercado uma imagem financeira mais sólida do que a realidade. Com isso, a varejista conseguia captar novos recursos e renovar sucessivamente as operações de crédito.

Para os investigadores, a continuidade dessas operações também levantou dúvidas, já que o crescimento expressivo do risco sacado não teria provocado questionamentos por parte das instituições financeiras sobre a ausência dessas informações nos demonstrativos contábeis da empresa.

A linha de investigação considera que, sem a renovação constante dessas operações, a expansão do endividamento da Americanas poderia ter sido interrompida muito antes, reduzindo os prejuízos causados a credores e investidores.

O que dizem os bancos

Em nota, o Itaú Unibanco afirmou que não é alvo da investigação e ressaltou que colabora com as autoridades desde 2023. A instituição informou que apresentou à Justiça documentos que comprovam a regularidade de sua atuação e sustenta que recusou pedidos da antiga administração da Americanas para alterar cartas de circularização.

O banco também declarou que nunca atuou de forma coordenada com outras instituições financeiras para ocultar informações e reafirmou seu compromisso com a ética, a transparência e o cumprimento das normas regulatórias.

O Santander informou que permanece colaborando com as investigações desde o início das apurações e reiterou que está ao lado das partes prejudicadas pelo caso. A instituição afirmou ainda manter compromisso com a ética, a transparência e o cumprimento da legislação.

Já o Bradesco declarou apenas que acompanha o caso e permanece à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários.