Christa Pike seria a primeira mulher executada no Tennessee, nos Estados Unidos, em cerca de 200 anos. Mas a execução por injeção letal, realizada na noite de quarta-feira (30), não saiu como previsto.

Pike foi amarrada a uma maca e recebeu duas doses de pentobarbital, medicamento utilizado pelo estado no procedimento. Mesmo após a aplicação das substâncias, ela permaneceu viva. Jornalistas autorizados a acompanhar a execução relataram que a condenada respirava, gemia e chegou a roncar.

“Nada daquilo era normal”, afirmou Catherine Sweeney, repórter da WPLN, que acompanhou outras execuções no estado. “Nunca vimos nada parecido. Deu muito errado.”

A defesa informou nesta quinta-feira (1º) que Pike permanece em estado crítico e recebe atendimento médico. O advogado Randy Spivey pediu ao governador do Tennessee, Bill Lee, que a pena de morte seja convertida em outra punição.

Segundo o advogado, Pike teria sido submetida a um sofrimento excepcional durante a tentativa de execução.

O que aconteceu durante a execução

Pike deveria ser executada pela manhã, mas recursos apresentados à Justiça adiaram o procedimento para a noite.

De acordo com a jornalista Tori Gessner, da WKRN, as testemunhas entraram na sala de observação às 18h41. As persianas da câmara foram abertas às 19h26, quando Pike fez sua declaração final.

Às 19h34, a condenada afirmou que seu braço parecia estar prestes a explodir. Nos minutos seguintes, testemunhas disseram que ela aparentava falar, respirar, gemer e roncar.

As persianas foram fechadas às 19h46 e reabertas três minutos depois. Nesse momento, Pike ainda roncava com a boca aberta.

As cortinas foram novamente fechadas às 20h05 e permaneceram assim até que os jornalistas fossem retirados do local, às 20h53.

Segundo a defesa, a equipe responsável pela execução passou cerca de uma hora tentando obter acesso intravenoso e utilizou pelo menos sete agulhas no braço esquerdo de Pike.

“Estou assombrado pelo que aconteceu ontem à noite”, afirmou Spivey. “O que vi não é algo que deveria acontecer novamente, jamais.”

Defesa aponta possíveis falhas

Os advogados de Pike levantaram possíveis problemas no procedimento, incluindo dificuldades para acessar as veias, rompimento de veias, possível deterioração do pentobarbital e ausência de atendimento médico de emergência durante a execução.

A defesa também criticou o fato de o protocolo utilizado pelo Tennessee ser mantido em sigilo em alguns aspectos.

Pike foi condenada à morte pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos, ocorrido em 1995.

Governador suspende próxima execução

Após o episódio, o governador republicano Bill Lee anunciou a suspensão da última execução prevista no Tennessee para este ano.

Segundo a Associated Press, Lee determinou uma revisão independente para esclarecer o que aconteceu durante a tentativa de execução de Pike.

“O governador agiu corretamente ao determinar uma investigação”, afirmou o gabinete do procurador-geral do Tennessee, Jonathan Skrmetti. “Precisamos saber o que aconteceu.”

Não é a primeira vez que Lee suspende execuções no estado. Em 2022, ele tomou medida semelhante depois que foi constatado que os procedimentos de teste dos medicamentos utilizados nas injeções letais não haviam sido cumpridos adequadamente.

Estado diz que protocolo foi seguido

O Departamento de Correções do Tennessee afirmou que todas as etapas previstas no protocolo foram cumpridas durante a tentativa de execução.

Em nota, o órgão declarou que o medicamento utilizado tem apresentado eficácia consistente e que o protocolo não prevê procedimentos adicionais além dos realizados na quarta-feira.

Pike foi posteriormente transferida para uma unidade médica externa.

O protocolo de execução por injeção letal do Tennessee prevê o uso exclusivo de pentobarbital. O documento estabelece ainda que uma segunda dose deve estar disponível caso o condenado não esteja morto após a aplicação inicial.

O protocolo, no entanto, não especifica detalhadamente o procedimento a ser adotado caso a segunda dose também não provoque a morte.

Caso é considerado raro

Especialistas ouvidos sobre o caso afirmam que há poucos precedentes de uma pessoa sobreviver a uma execução depois que os medicamentos foram administrados.

Austin Sarat, professor do Amherst College e pesquisador da pena de morte, afirmou que a situação envolvendo Pike é praticamente sem precedentes.

Há cerca de 80 anos, Willie Francis sobreviveu a uma tentativa de execução na cadeira elétrica, na Louisiana. Ele acabou sendo executado posteriormente, em uma segunda tentativa.

No caso de Pike, segundo Sarat, a situação é ainda mais incomum por envolver uma execução por injeção letal na qual os medicamentos chegaram a ser administrados, mas a condenada sobreviveu.

A investigação determinada pelo governo do Tennessee deverá esclarecer o que ocorreu durante o procedimento e se houve falhas na aplicação do protocolo.