O Brasil tem cerca de 9,6 milhões de pessoas matriculadas em academias, o equivalente a 4% da população. O país ocupa o segundo lugar mundial em número de estabelecimentos, mas apenas o quarto em usuários ativos. Entre o contrato assinado e o treino de verdade existe um intervalo que custa caro ao setor, e foi ele que o pesquisador Fábio Lima de Brito decidiu medir.
De acordo com uma investigação compartilhada pela revista Qualis A Open Minds (propriedade do CPAH, o Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, sob gestão técnica da Editora Atena), o hábito de pagar a mensalidade sem frequentar o local funciona como sinal precoce de abandono da atividade e afeta diretamente a receita das academias. O estudo foi aceito em 2 de outubro de 2026 e integra o volume 2, número 16, de 2026.
Como a pesquisa foi feita?
O trabalho combinou métodos quantitativos e qualitativos, em recorte transversal, exploratório e descritivo, e teve duas etapas:
*109 frequentadores de academias e espaços semelhantes, escolhidos ao acaso, responderam a uma escala de atitudes com 36 afirmações, organizadas em três dimensões: falta de tempo, falta de recursos e (des)incentivos.
*15 gestores e proprietários foram entrevistados para interpretar os dados com base na experiência de quem administra o negócio.
*Todos os participantes da primeira etapa tinham 18 anos ou mais e pagaram as mensalidades do período analisado, entre 2022 e 2023.
Por que o verão enche e esvazia a academia?
A sazonalidade foi um dos achados mais nítidos. Seis dos 15 gestores descreveram um padrão que se repete todos os anos: clientes que chegam nas férias e no verão, quando a agenda tem folga, e somem depois. “São pessoas que realmente vêm por 3 meses e saem”, relatou um entrevistado. Outro disse que, de dezembro a março, cerca de 80% dos alunos frequentam, índice que cai para 50% ou 40% a partir de março.
O estudo lembra que a taxa de rescisão é maior nos três primeiros meses do contrato. Em pesquisa citada pelo autor, a frequência média caiu de 7,48 visitas no primeiro mês para 0,92 no último mês de contrato.
O dinheiro pesa na decisão?
A dimensão de recursos teve média de 3,10 na escala. A afirmação sobre os custos de mensalidade, transporte, alimentação e orientação técnica ficou em 2,92, e a frase “a falta de dinheiro me fez cancelar a matrícula” marcou 2,99. O estudo classifica esses valores como faixa de alerta. O autor menciona ainda um trabalho anterior em que metade da amostra deixou a academia por motivos financeiros.
E a motivação?
Os 15 gestores citaram a falta de comprometimento do aluno com a prática como agente do comportamento. Dez deles disseram já ter vivido a situação: um contou que pagou um ano inteiro de matrícula e não foi, mesmo com tempo e com a academia por perto. A afirmação sobre se sentir constantemente desmotivado para treinar teve média de 2,27, também em nível de alerta.
O texto observa ainda que quem investiu na matrícula pode hesitar em cancelar para não sentir que perdeu o dinheiro.
O que as academias podem fazer?
Entre as estratégias de retenção listadas estão treinos personalizados, aulas variadas, programas de fidelidade, recompensas por metas, acompanhamento constante dos instrutores e eventos que formem uma comunidade. Um gestor defendeu adaptar a academia ao tempo que o aluno tem, mesmo que sejam 20 ou 30 minutos por dia. Ainda assim, segundo o autor, a decisão final de continuar treinando recai sobre o aluno.
Aluno ausente também gera receita?
Sim, e esse é o ponto delicado. Alunos inativos geram receita sem custo operacional direto, o que pode mascarar problemas de experiência e engajamento. Ao mesmo tempo, os gestores gastam muito esforço para conter a saída de clientes, o que gera despesas relevantes.
A conclusão de Brito é que abandonar a academia não é apenas uma falha individual, e sim o reflexo da interação complexa entre fatores pessoais e contextuais. Com o verão se aproximando no Hemisfério Sul, a pesquisa ajuda a entender por que as matrículas costumam acelerar nesta época e o que acontece depois.
A Open Minds é propriedade intelectual e científica do CPAH. A Editora Atena atua como gestora técnica, administradora do ISSN e parceira comercial mediante royalties, mas não é dona do periódico.
Fonte: Open Minds International Journal, vol. 2, n. 16, 2026, artigo 14. Autor: Fábio Lima de Brito. DOI https://doi.org/10.22533/at.ed.515721626170814