Ficar sem par deixou de ser apenas consequência da falta de alguém interessante. Para algumas mulheres, virou uma escolha consciente.

Nas redes sociais, o movimento conhecido como Boy Sober ganhou força ao propor uma pausa voluntária em encontros, aplicativos, relacionamentos casuais e até naquela expectativa constante por uma nova mensagem. A ideia é simples: tirar os homens do centro da vida afetiva por algum tempo e direcionar mais energia para carreira, amizades e bem estar pessoal.

Ao mesmo tempo, outro termo começou a aparecer com mais frequência nas discussões sobre relacionamento: heteropessimismo.

A expressão descreve uma frustração crescente com as relações heterossexuais e com a sensação de que homens e mulheres passaram a esperar coisas diferentes uns dos outros. Em agosto, uma reportagem do UOL resumiu parte desse desencontro em uma frase que viralizou nas redes sociais: mulheres querem homens que ainda não existem e homens querem mulheres que já não existem mais.

Para Caio Bittencourt, especialista em comportamento afetivo e porta voz do MeuPatrocínio, o fenômeno não significa necessariamente que mulheres tenham perdido o interesse em relacionamentos.

“Existe uma diferença enorme entre desistir de se relacionar e desistir de aceitar qualquer relacionamento. O que estamos vendo é muita gente dizendo: se essa relação vai me trazer mais desgaste do que felicidade, eu prefiro continuar solteira. Por isso elas preferem em muito dos casos relacionamentos com homens mais experiêntes e bem sucedidos.”

Estar solteira deixou de ser uma situação temporária

Durante muito tempo, a vida de solteiro foi tratada quase como um período de espera entre dois relacionamentos. Essa lógica começa a mudar.

Em julho, a Folha de S.Paulo mostrou mulheres que, frustradas com experiências amorosas anteriores, passaram a direcionar mais tempo, energia e dinheiro para amizades femininas e outras áreas da própria vida. Algumas afirmam não ter mais o relacionamento amoroso como prioridade.

Para Bittencourt, independência também mudou a dinâmica da escolha afetiva. “Quando uma pessoa não depende de um relacionamento para construir a própria vida, o relacionamento precisa acrescentar alguma coisa. Parece óbvio, mas isso muda completamente o nível de tolerância. Ficar com alguém apenas para não ficar sozinho perde sentido, o que é ótimo. Estar com alguém tem que ser uma decisão feita por vocação e não por falta de opção.”

Essa mudança aparece também na forma como algumas mulheres descrevem o mercado de relacionamentos. Uma reportagem da Folha publicada em abril mostrou o crescimento do chamado heteropessimismo entre mulheres heterossexuais. Falta de iniciativa, ausência de responsabilidade afetiva e dificuldade de encontrar parceiros dispostos a construir relações mais equilibradas apareceram entre as principais reclamações citadas.

Mais exigentes ou apenas mais claras sobre o que querem?

Bittencourt acredita que a palavra “exigente” muitas vezes é utilizada de maneira equivocada quando se fala sobre mulheres e relacionamentos.

“Existe uma diferença entre criar uma lista impossível de requisitos e saber aquilo que você não quer mais negociar. Ter clareza sobre seus limites não significa estar procurando uma pessoa perfeita, que inclusive nem existe, e estar preparada para aceitar os defeitos que eventualmente vão aparecer.”

O tema ganhou ainda mais atenção neste ano depois que a atriz e apresentadora Maisa Silva falou publicamente sobre características que considera incompatíveis com um relacionamento, incluindo falta de perspectiva de vida. A declaração foi associada ao movimento Boy Sober e repercutiu nas redes sociais.

Segundo Bittencourt, existe uma mudança importante escondida nessa discussão. “Talvez a pergunta tenha deixado de ser ‘ele é legal?’ e passado a ser ‘a vida dessa pessoa combina com a vida que eu quero construir?’. Isso envolve comportamento, ambição, maturidade, estabilidade, estilo de vida e expectativas sobre o futuro.”

É justamente aqui que o MeuPatrocínio entra na conversa

No universo dos relacionamentos sugar, essa discussão sobre expectativas sempre esteve mais explícita.

Segundo o MeuPatrocínio, a lógica da plataforma parte justamente da ideia de que duas pessoas adultas podem conversar de maneira direta sobre aquilo que procuram em uma relação, sem depender exclusivamente das regras tradicionais do namoro.

Para Bittencourt, essa clareza pode explicar parte do interesse crescente por formatos de relacionamento nos quais expectativas são apresentadas mais cedo. “No relacionamento tradicional antiquado existe quase um ritual de não perguntar certas coisas. Parece feio perguntar sobre dinheiro, carreira, estilo de vida ou expectativas logo no início. Só que essas questões vão aparecer depois de qualquer jeito.”

Ele afirma que evitar essas conversas pode criar relações baseadas em expectativas completamente diferentes. “Você pode passar meses conhecendo alguém e só depois descobrir que vocês querem vidas incompatíveis. Quando as pessoas deixam claro desde o começo o que procuram, isso não torna o relacionamento menos romântico. Torna a escolha mais consciente.”

O problema talvez não seja a falta de homens

Dados do Censo 2022 ajudam a adicionar outra camada à discussão.

Segundo números citados pela Folha, o Brasil possui 33,2 milhões de mulheres e 25,7 milhões de homens com mais de 20 anos que não vivem em união. Ainda assim, mulheres entrevistadas pela publicação relataram dificuldade para encontrar parceiros compatíveis.

Para Bittencourt, quantidade disponível e compatibilidade são coisas completamente diferentes. “Você pode ter milhões de pessoas solteiras e continuar tendo dificuldade para encontrar alguém que combine com aquilo que procura. Relacionamento nunca foi uma questão puramente matemática. E na maioria das vezes olhar para dentro resolve muito mais do que olhar para fora.”

O Boy Sober pode ser menos sobre abandonar relacionamentos e mais sobre redefini-los

Na visão de Bittencourt, movimentos como o Boy Sober provavelmente dizem mais sobre mudança de expectativas do que sobre rejeição definitiva aos relacionamentos. “Eu não vejo uma geração desistindo do amor. Vejo pessoas menos dispostas a entrar em relações só porque existe uma expectativa social de que elas precisam estar com alguém.”

Para ele, existe uma oportunidade importante nesse movimento.

“Talvez essa pausa seja justamente o momento em que muita gente começa a entender melhor aquilo que quer. E quando você sabe o que procura, fica muito mais fácil dizer não para o que não combina com você e sim quando aparece algo que realmente faz sentido.”

No MeuPatrocínio, essa lógica faz parte da proposta da plataforma: aproximar adultos que tenham clareza sobre expectativas, estilo de vida e o tipo de relacionamento que desejam construir.

“Relacionamentos mudaram porque as pessoas mudaram. O que não mudou é a necessidade de duas pessoas quererem coisas compatíveis. Quanto mais cedo essa conversa acontece, menor a chance de alguém descobrir meses depois que estava vivendo uma relação completamente diferente daquela que imaginava”, conclui Bittencourt.