Muita gente aprende a fazer sexo antes de aprender a falar sobre ele, e essa dificuldade pode levar pessoas a fingir prazer, esconder fantasias ou aceitar situações desconfortáveis para não decepcionar o parceiro. Com o tempo, o que não é dito pode se transformar em frustração, distanciamento e até vontade de evitar os encontros sexuais.
Para a neuropsicóloga Fernanda Purificação, especializada em emoções, comportamento, desejo e cognição, conversar sobre sexo é fundamental para que os parceiros conheçam as vontades um do outro e experimentem novas possibilidades sem transformar o prazer em uma obrigação. O Sexlog, maior rede social de sexo e swing da América Latina, conversou com a especialista sobre os desafios de falar abertamente sobre intimidade e a importância de construir uma relação em que ambos possam expressar desejos e limites.
Por que ainda é tão difícil falar sobre sexo?
Falta de prazer, diferenças no desejo sexual, fantasias, dor durante a penetração e dificuldades para chegar ao orgasmo estão entre os assuntos que muitos casais evitam, frequentemente por medo de julgamento ou de magoar a outra pessoa.
“Quando a pessoa acredita que admitir uma dificuldade vai colocar sua feminilidade, sua masculinidade ou seu valor em julgamento, a situação começa a ficar complexa. Ela tem vergonha, tem medo de comparação, de parecer inexperiente ou até de magoar o outro”, explica Fernanda.
A reação de quem escuta também influencia a disposição para conversar, já que uma preferência pode virar motivo de discussão quando é recebida como crítica pessoal. “Se toda tentativa de conversar termina em deboche, interrogatório ou cara fechada, esse silêncio tem contexto. Pedir sinceridade e punir a resposta é uma estratégia bastante eficiente para o casal nunca mais ouvir a verdade”, afirma.
Fingir prazer pode afastar o casal
Quando alguém finge gostar de determinada prática, o parceiro tende a continuar repetindo o comportamento por acreditar que está agradando, enquanto a insatisfação permanece escondida e pode se transformar em frustração e distanciamento. Para a especialista, porém, é importante compreender o que leva alguém a fingir, em vez de atribuir a responsabilidade exclusivamente a essa pessoa, que pode sentir vergonha, temer uma reação negativa ou acreditar que o prazer do parceiro deve vir sempre em primeiro lugar.
O caminho é criar espaço para expressar preferências de maneira concreta, explicando, por exemplo, que um toque mais leve ou outro ritmo proporciona mais prazer. “Não dá para pedir um caminho e ficar ofendido com o endereço”, resume Fernanda, que lembra ainda que o corpo, o desejo e as preferências mudam ao longo do relacionamento, tornando necessário atualizar o conhecimento sobre o prazer do outro.
Como contar uma fantasia sem transformar o desejo em cobrança
Compartilhar uma fantasia pode aproximar o casal, desde que a conversa não seja interpretada como uma exigência ou como uma expectativa que o outro precisa atender para demonstrar amor. “Compartilhar uma fantasia não significa exigir uma realização. Ponto”, afirma Fernanda.
A especialista sugere começar o assunto deixando claro que não existe obrigação de colocar a ideia em prática: “Tenho uma curiosidade e queria conversar com você. Podemos falar sobre isso sem compromisso de fazer?”. Assim, o parceiro tem liberdade para demonstrar interesse, tirar dúvidas ou recusar a proposta sem constrangimento.
“Se o desejo de um virar insistência para o outro, vai dar problema. Nem toda fantasia precisa sair da cabeça. A imaginação não é uma lista de tarefas pendentes do casal”, ressalta. Quando existe interesse mútuo, o casal pode conversar sobre cuidados e limites, mantendo a liberdade de interromper a experiência a qualquer momento.
Consentimento também se constrói durante o sexo
A comunicação não deve ficar restrita às conversas anteriores à intimidade, pois perguntar se algo está confortável, indicar o que proporciona prazer ou pedir uma mudança de ritmo ajuda os parceiros a acompanhar as preferências um do outro durante a experiência.
O silêncio, por sua vez, não confirma prazer nem consentimento. Se a pessoa demonstrar tensão, desconforto ou afastamento, a orientação é interromper a atividade e perguntar o que está acontecendo. Da mesma forma, expressões como “isso eu não quero” ou “quero parar” precisam ser respeitadas sem insistência, chantagem ou punição.
“Uma negativa não define o valor de ninguém. E relacionamento não é autorização permanente de acesso ao corpo do outro”, reforça Fernanda, lembrando que ninguém precisa oferecer uma alternativa ou compensação ao recusar uma prática sexual.
A dificuldade de estabelecer limites pode aparecer quando alguém aceita uma situação apenas para evitar discussões, finge prazer repetidamente ou começa a evitar beijos e carinhos por receio de que qualquer demonstração de afeto seja interpretada como uma obrigação de transar. “Quando o beijo passa a significar que vou ter que transar, a pessoa começa a evitar até isso, e o corpo responde com estresse”, explica.
Como começar a conversar sem transformar tudo em discussão
Para casais que não têm o hábito de falar sobre sexo, a neuropsicóloga recomenda começar com pequenas conversas, sem esperar que uma crise obrigue os parceiros a abordar o assunto. Perguntar o que foi agradável, o que poderia ser diferente ou se existe alguma curiosidade a compartilhar permite construir intimidade sem a pressão de resolver tudo de uma vez.
Também é importante escutar sem interpretar cada preferência como uma crítica, reconhecendo que ninguém precisa conhecer perfeitamente o próprio corpo para começar esse diálogo. Quando já existem frustrações acumuladas, uma maneira de retomar a conversa é admitir a dificuldade: “Acho que a gente acumulou desconforto e acabou evitando esse assunto. Queria tentar conversar de outro jeito”, sugere Fernanda.
A conversa não precisa terminar em sexo nem solucionar anos de dificuldades em um único momento, pois pode resultar em um pedido de desculpas, em uma nova compreensão sobre o parceiro ou em um acordo para respeitar melhor os limites de cada um. Se o diálogo termina repetidamente em ataques e impasses, a terapia pode ajudar; quando existe medo de retaliação ou coerção, a prioridade deve ser a segurança e a busca por apoio individual.
Para a especialista, não falar sobre sexo não significa necessariamente que exista um problema, mas também não comprova que tudo esteja bem. O essencial é que ambos tenham liberdade para expressar vontades, reconhecer desconfortos e construir uma intimidade em que o prazer não dependa de fingimento ou obrigação.
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