A prática regular de exercícios físicos é reconhecida por seus benefícios à saúde cardiovascular e metabólica. Nos últimos anos, também ganhou espaço nas pesquisas sobre câncer, tanto na prevenção de alguns tumores quanto na evolução de pacientes após o diagnóstico. Estudos indicam que pessoas fisicamente ativas apresentam menor risco de desenvolver determinados tipos de câncer e que programas estruturados de exercícios podem melhorar resultados clínicos em situações específicas. Uma revisão científica publicada na revista Nature Reviews Clinical Oncology, de autoria de Joshua W. Bliss e Lee W. Jones, analisa os avanços e as limitações das evidências sobre o papel da atividade física na prevenção e no tratamento oncológico. A principal conclusão é que os benefícios são promissores, mas não podem ser generalizados para todos os tumores ou etapas da doença.

 

Na prevenção, estudos observacionais associam níveis mais elevados de atividade física a uma menor incidência de diferentes tipos de câncer. Uma análise que reuniu dados de 1,44 milhão de adultos, distribuídos por 12 grupos de pesquisa, encontrou associação entre maior prática de exercícios e menor risco de 13 tipos de tumor. Entre os resultados, a redução relativa do risco foi de aproximadamente 21% para o câncer de endométrio e de 16% para o câncer de cólon.

 

Esses números, no entanto, exigem cautela. Estudos observacionais identificam associações, mas não demonstram, por si só, que o exercício seja a causa direta da redução do risco. Outros fatores, como alimentação, peso corporal, tabagismo e condições gerais de saúde, podem influenciar os resultados. Também é necessário considerar que pessoas com doenças ainda não diagnosticadas podem reduzir suas atividades físicas.

 

Após o diagnóstico, a atividade física também tem sido associada a melhores resultados. Pesquisas observacionais apontam relação entre a prática de exercícios e menor mortalidade geral e específica por câncer em diferentes grupos de pacientes. Em uma análise com 90.844 sobreviventes da doença, cumprir as recomendações de atividade física esteve associado a uma mortalidade por todas as causas 42% menor. Como se trata de uma associação observacional, o resultado não comprova que o exercício, isoladamente, tenha provocado essa diferença.

 

A evidência mais consistente de benefício clínico vem de estudos que avaliaram programas estruturados de exercícios. Um exemplo é o ensaio clínico CHALLENGE, que acompanhou pacientes com câncer de cólon em estágio III ou em estágio II de alto risco após cirurgia e quimioterapia adjuvante. Os participantes que realizaram um programa de exercícios apresentaram melhora na sobrevida livre de doença e na sobrevida global.

 

O resultado representa um avanço importante porque vai além da observação de hábitos e avalia uma intervenção planejada. Ainda assim, não significa que o exercício produza o mesmo efeito em todos os tipos de câncer. Outro estudo de fase III, o ECHO, não encontrou melhora na sobrevida livre de progressão entre pacientes com câncer de ovário submetidas a tratamento sistêmico inicial. A diferença entre os resultados reforça a necessidade de avaliar cada tumor e contexto terapêutico separadamente.

 

Também não há, até o momento, evidências conclusivas de que a prática de exercícios aumente diretamente a resposta dos tumores aos tratamentos sistêmicos, incluindo a imunoterapia. Alguns estudos iniciais identificaram alterações em marcadores biológicos, mas esses resultados ainda não permitem estabelecer qual intensidade ou quantidade de atividade física seria necessária para produzir um efeito antitumoral comprovado.

 

A revisão destaca, portanto, a importância de distinguir os benefícios gerais da atividade física dos efeitos específicos sobre a evolução do câncer. Exercitar-se pode contribuir para a saúde e estar associado a melhores desfechos, mas não substitui cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia ou qualquer outra terapia indicada pela equipe médica.

 

As recomendações gerais da Organização Mundial da Saúde para adultos são de 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica de intensidade moderada, ou de 75 a 150 minutos de intensidade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular. Para pessoas em tratamento oncológico ou em recuperação, porém, a rotina deve ser adaptada às condições clínicas, aos efeitos adversos, à capacidade funcional e às orientações dos profissionais de saúde.

 

A chamada oncologia do exercício busca justamente avançar nessa personalização. O desafio é identificar quais modalidades, intensidades e períodos de treinamento são mais adequados para cada perfil de paciente e em quais situações os exercícios podem melhorar desfechos clínicos relevantes.

 

O conjunto das pesquisas aponta para um papel crescente da atividade física no cuidado oncológico, mas também evidencia lacunas que precisam ser preenchidas. A prevenção de determinados tumores e os benefícios observados em grupos de pacientes são campos promissores. Para transformar essas associações em recomendações específicas e comprovar efeitos sobre a progressão da doença, ainda são necessários ensaios clínicos robustos, realizados em diferentes tipos de câncer e fases do tratamento.