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Artigo: O enigma da curadoria

Tempos de coronavírus e de COVID-19 são apropriados para reflexão. Um dos temas que sempre despertam dúvida é o da curadoria, algo positivo em sua essência, mas que, talvez por vaidades e incompreensões de todos os envolvidos, desperta opiniões radicais, o que pode ser aparentemente apaixonante, mas costuma prejudicar o raciocínio e a análise equilibrada.

O curador, se formos tomar a origem latina da palavra, está associado ao conceito de ser aquele que cuida de uma exposição ou da carreira de um artista. Cabe a ele ser o gestor do conteúdo de uma exposição, geralmente aglutinada por um tema ou proposta central, selecionando os participantes por aproximações ou diferenças.

Os critérios podem ser os mais variados, passando por local de nascimento, faixa etária, lugar de residência, técnica utilizada ou estilo artístico, chegando àqueles mais subjetivos como uma frase motivadora, um conceito ou um assunto, que pode ser desde algo muito específico a uma ideia abrangente na qual quase tudo – ou mesmo tudo – cabe.

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O esforço do profissional da área é para que uma mostra tenha algum tipo de unidade, que será materializada na montagem do espaço e na edição de um catálogo se houver. O curador, portanto, não é maior que os artistas nem menor. É um partícipe do processo criativo, alguém com quem deve ser prazeroso dialogar da concepção até o encerramento de uma experiência.

O curador atua como um canal entre os artistas e o público, o que se dá pela pesquisa e pela busca do entendimento de quem são os artistas, em que local ocorre a exposição e a que público se destina. Portanto, cabe ao curador, sem egocentrismo, ter uma mente aberta para questões culturais, que incluem a diversidade de técnicos, estilos e culturas.

O artista precisa ter a mesma postura, respeitando o olhar externo e permanecendo aberto à troca de ideias. Saber ouvir é essencial. Somente assim existirá a possibilidade de se procurar novas visões e caminhos. O curador que tudo finge saber tudo e o criador que acha que se conhece totalmente estão igualmente cometendo um crime intelectual.

A discussão de alto nível entre curador e artista somente ocorre quando ambos estão (pre)dispostos a se conhecerem – e a se entenderem. Assim, o artista sábio, ao incorporar o olhar de fora, contribui para curar a sua própria obra; e o curador realmente digno desse nome, ao ouvir os artistas e mergulhar em suas obras, atinge o ponto máximo de sua carreira, o de ser também um criador, seja em ideias, montagens ou textos.

Não existe, nessa perspectiva saudável, alguém melhor do que o outro – ou vencedor e vencido. Existe trabalho conjunto. Os melhores artistas geralmente conseguem ter visões complementares próprias dos curadores; assim como os melhores curadores atuam como autênticos artistas.

Com conversa sincera e amor verdadeiro à arte, tudo – mesmo o que, para alguns, parece impossível – se torna possível.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

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