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Brasil

Procurador que reclamou de miserê ganha mais que 99% dos brasileiros

Mais de 45 milhões de trabalhadores, quase a totalidade dos com emprego formal, têm rendimento inferior a R$ 24 mil líquidos, segundo o governo

Procurador de Justiça Leonardo Azeredo dos Santos

O rendimento líquido do procurador de Justiça Leonardo Azeredo dos Santos, que ficou famoso nesta semana após chamar de “miserê” a remuneração dos funcionários do Ministério Público de Minas Gerais e reclamar do salário de R$ 24 mil, é maior que o rendimento de 99,4% da população brasileira com vínculo empregatício.

Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério da Economia, 45,9 milhões de trabalhadores recebem menos que os R$ 23,8 mil recebidos por Leonardo Azeredo como salário líquido. Trata-se da quase totalidade dos 46,2 milhões de pessoas com emprego formal em 2017 – último balanço disponível. Apenas 299.280 pessoas – 0,6% do total – ganham mais que o procurador.

O levantamento, antes a cargo do extinto Ministério do Trabalho, considera todas as pessoas com vínculo empregatício, como celetistas, servidores públicos, trabalhadores com contratos por tempo determinado etc.

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Números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também indicam grande discrepância entre os vencimentos do procurador e os da maior parte dos brasileiros. Segundo o instituto, a média de rendimentos no país foi de R$ 2.210 entre maio e julho deste ano. É preciso multiplicar esse valor por 10,7 para alcançar o salário líquido de Leonardo Azeredo dos Santos. Já o valor bruto, de R$ 35.462,12, representa 16 vezes o vencimento do brasileiro médio.

As informações do IBGE são coletadas por meio da Pesquisa Nacional por Amostrar de Domicílio Mensal, que considera pessoas com 14 ou mais anos e que trabalham de maneira formal e informal.

Desabafo

O procurador desabafou em uma reunião interna do órgão sobre o que ele chama de “baixos salários” dos membros do MP no Estado. Durante a 5ª sessão extraordinária da Câmara de Procuradores, realizada no dia 12 de agosto, e que discutia o Orçamento do órgão para o próximo ano, Leonardo Azeredo dos Santos pediu para falar e reclamou dos salários de R$ 24 mil, diz que está diminuindo o gasto de R$ 20 mil mensais de cartão de crédito, e pediu ao Procurador-Geral de Justiça que utilizasse da sua “criatividade” para melhorar a situação financeira da categoria.

 

“Dentro da administração, não há nenhuma perspectiva, nenhum sonho da administração de incrementar qualquer tipo de vantagem que aumente a nossa remuneração? Ou plantão, ou qualquer coisa que aumente a remuneração?”, cobrou o procurador, dirigindo a palavra ao Procurador-Geral de Justiça de Minas Gerais, Antônio Sérgio Tonet, que estava presente na reunião que discutia, justamente, o orçamento do órgão para o ano que vem.

O procurador seguiu com o desabafo, que dura mais de cinco minutos.

— Como é que o cara vai viver com R$ 24 mil? O que é que nós vamos fazer para melhorar a nossa remuneração? Ou nós vamos ficar quietos? Eu não sei se eu vou receber a mais, se vai ter algum recálculo dos atrasados que vai salvar a minha pele. Eu, de qualquer modo já estou baixando meu padrão de vida bruscamente.”

O procurador também diz que acumulou patrimônio ao longo de 28 anos de carreira e que precisa mantê-lo. Ele cita os gastos de condomínio e IPTU, que dão R$ 4,5 mil mensais. “Eu, infelizmente, não tenho origem humilde. Eu não sou acostumado com tanta limitação. Talvez seja até mal visto”, diz.

Ainda durante a reunião interna do MP, o procurador de Justiça Leonardo Azeredo dos Santos continua a cobrança por uma solução “criativa” de Tonet para aumentar a remuneração da categoria e chama a situação de “miserê”.

“Eu quero saber se nós vamos continuar, ano que vem, nessa situação, ou se vossa Excelência já planeja alguma coisa, dentro da sua criatividade para melhorar nossa situação. Ou se nós vamos ficar nesse miserê aí. E ainda sob ameaça de não termos aumento. De o Supremo aumentar nosso salário e nós não podermos receber. Quem é que vai querer ser promotor? Nós não vamos ter aumento mais. Porque o Estado vai dizer que nós não vamos ter aumento. Quem vai querer ser promotor? Para que concurso? Não vai ter mais concurso nenhum”.

Nesta fala, o procurador se refere a uma negociação do Governo de Minas Gerais com a União que pode impactar no congelamento de salários dos servidores públicos no ano que vem. O Regime de Recuperação Fiscal, que a gestão do governador Romeu Zema (Novo) pretende aprovar também impactaria o MPMG, que ficaria impossibilitado de receber aumento durante os próximos anos.

Corte de gastos

Ainda durante o seu desabafo, o procurador de Justiça do MP de Minas diz que está fazendo sua parte para economizar e viver com os R$ 24 mil de salário.
“Estou deixando de gastar R$ 20 mil de cartão de crédito e estou gastando R$ 8 (mil) pra poder viver com meus R$ 24 mil. Agora, eu e vários outros estamos vivendo a base de cromprimidos, de antidepressivo”, diz.

— Vamos virar pedinte, quase? Alguém vai chegar: que exagero o seu. Você não sabe o que é pedinte. Mas será que estou pedindo muito para um cargo que eu ocupo? Será que estou pedindo muito? Será que o meu cargo não merece uma remuneração que eu possa pagar o colégio dos meus filhos, por exemplo? Eu só tenho um, mas e quem tem três? Vai viver com R$ 20 e poucos mil reais?”

 

 

 

 

 

Fonte:R7.com

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