Wagner Moura voltou a comentar os impactos que afirma ter sofrido durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (2018–2022). Em entrevista recente, o ator e diretor disse que viveu no Brasil sob um “governo fascista” e relatou que seu primeiro filme como diretor, Marighella, enfrentou uma “censura cínica” e dificuldades para chegar aos cinemas brasileiros.

O longa, que retrata a trajetória de Carlos Marighella, líder da resistência armada contra a ditadura militar, teve sua estreia internacional no Festival de Berlim, em 2019, mas só foi lançado no Brasil dois anos depois, em 2021.

As declarações foram feitas durante participação no podcast norte-americano Happy Sad Confused, apresentado por Josh Horowitz. Segundo Wagner Moura, o filme se tornou alvo direto do então presidente da República, que teria “tomado a produção para o lado pessoal”.

“Bolsonaro é um fã da ditadura. Ele elogia abertamente esse período”, afirmou o ator. Wagner também relembrou o episódio em que Bolsonaro dedicou seu voto no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff ao coronel Carlos Brilhante Ustra, reconhecido como um dos principais torturadores do regime militar.

De acordo com o ator, o boicote ao filme não ocorreu por meio de uma censura explícita, mas por entraves institucionais e burocráticos. “Ele encontrou um jeito de censurar meu filme, mas não foi como na ditadura. Foi uma censura cínica. Ele bloqueava todos os caminhos possíveis”, disse.

Wagner explicou que Marighella foi filmado entre o fim de 2017 e o início de 2018 e que, apesar do reconhecimento internacional, enfrentou dificuldades para obter autorizações e acessar mecanismos de financiamento e distribuição no Brasil, que dependem de órgãos reguladores e apoio governamental.

Ataques e ameaças durante exibições

Após o lançamento no país, o filme e a equipe passaram a ser alvo de ataques de apoiadores do ex-presidente. Segundo Wagner Moura, o clima em algumas estreias chegou a exigir medidas de segurança reforçadas.

“Essas pessoas empoderam seus seguidores. Quem vive em um universo paralelo de informações se sente autorizado a agir. Ficou perigoso em muitos lugares onde estávamos lançando o filme. Tivemos que colocar detectores de metal na porta, porque estávamos recebendo ameaças de morte”, relatou.

Na avaliação do ator, governos com viés autoritário enxergam a produção artística como uma ameaça maior do que críticas feitas nas redes sociais. Segundo ele, um filme com o alcance simbólico de Marighella teria mais impacto do que declarações públicas contra o governo.

A entrevista ocorre em meio ao retorno de Wagner Moura ao circuito internacional de premiações. Ele está no elenco de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, filme indicado a quatro categorias no Oscar, incluindo a de Melhor Ator.