As primeiras  pessoas que se dizem vítimas do pastor cearense David Gonçalves Silva começaram nesta quarta-feira (22/4), na Delegacia de Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís. Além dos denunciantes, testemunhas também devem ser ouvidas ao longo dos próximos dias.

O líder religioso foi preso na última sexta-feira (17/4), durante a operação “Falso Profeta”. Ele é investigado por usar a igreja Shekinah House Church, onde atuava como pastor, para submeter fiéis a castigos físicos e punições psicológicas. Após cerca de dois anos de apuração, a Polícia Civil do Maranhão aponta indícios de crimes como estelionato, estupro de vulnerável, posse sexual mediante fraude e associação criminosa.

Até o momento, três pessoas já prestaram depoimento, enquanto outras oito devem ser ouvidas entre esta quarta (22/4) e quinta-feira (23/4).

Responsável pelo caso, o delegado Sidney Oliveira de Sousa afirmou que, após a prisão, novas vítimas passaram a procurar a polícia. Segundo ele, o contato foi feito principalmente por meio de mensagens.

“A gente conseguiu, depois da prisão dele, contato via WhatsApp com várias vítimas pelo Brasil e aqui em São Luís, que se dispuseram a vir à delegacia para relatar o que viveram”, explicou.

A Polícia Civil também deve ouvir a esposa do pastor, que atua como psicóloga e pastora na mesma igreja.

As investigações seguem em andamento e buscam identificar outros possíveis envolvidos. De acordo com o delegado, o inquérito deve avançar com novas frentes, mesmo após a conclusão da primeira fase.

“A gente está desenvolvendo a investigação para identificar outros participantes. O inquérito pode ser encerrado em relação a alguns pontos, mas, quanto aos demais envolvidos, as apurações continuam”, destacou.

Castigos físicos e punições internas
De acordo com o inquérito, fiéis que descumpriam regras impostas pela liderança eram submetidos a agressões físicas, chamadas de “readas”, que incluíam chineladas e chicotadas. A quantidade de golpes era determinada pelo próprio pastor. Em um dos relatos, quatro vítimas afirmaram ter recebido entre 15 e 25 chicotadas cada.

Isolamento e controle dos fiéis
A investigação também aponta que a estrutura da igreja era usada para isolar os integrantes. Jovens viviam em alojamentos sob regras rígidas, sem acesso a celulares, visitas familiares ou liberdade para sair desacompanhados.

Segundo os relatos, havia vigilância constante, inclusive com câmeras em áreas privadas, como banheiros. O ambiente, marcado por pressão psicológica, dificultava qualquer tipo de questionamento às ordens do líder.

Denúncias de abusos e fraudes
A polícia apura ainda que o controle exercido sobre os fiéis teria facilitado a prática de abusos sexuais. Homens e meninos estariam entre as principais vítimas. Em um dos depoimentos, uma vítima relatou que o pastor utilizava argumentos religiosos para justificar os abusos.

Até agora, cinco pessoas formalizaram denúncias contra David Gonçalves Silva. Ele é investigado por estupro de vulnerável, estelionato e lesão corporal.

A defesa do pastor informou que não irá se manifestar neste momento, pois ainda não teve acesso completo ao inquérito.