A aproximação da temporada de vestibulares reacende um debate que vai além das provas: o impacto da pressão sobre a saúde mental dos estudantes. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2019), do IBGE, mais da metade dos adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos relatam preocupação frequente com questões do dia a dia, e esse índice tende a se intensificar entre vestibulandos.
Um levantamento publicado no Jornal Brasileiro de Psiquiatria apontou que 23,5% dos estudantes de pré-vestibular apresentam ansiedade considerada moderada ou grave, nível significativamente superior ao da população adulta geral.
Na prática, esse cenário se manifesta de diferentes formas. Alguns estudantes apresentam dificuldades de concentração, alterações no sono, irritabilidade, queda de rendimento e insegurança constante. Em muitos casos, o excesso de preocupação leva o aluno a acreditar que nunca estudou o suficiente, mesmo mantendo uma rotina consistente de preparação.
Quando o nervosismo vira sinal de alerta
Sentir nervosismo antes de uma prova faz parte do processo e pode até contribuir para aumentar o foco e a motivação. O alerta surge quando esse sentimento deixa de ser passageiro. “Mudanças persistentes de humor, isolamento, crises frequentes de choro, dificuldade para dormir, perda ou aumento significativo do apetite, além de sintomas físicos recorrentes, são sinais de que a família e a escola devem buscar orientação profissional”, afirma Yan Luz, coordenador de segmento da rede Anglo Alante.
Ignorar esses sinais tem consequências que ultrapassam o vestibular. “A ansiedade excessiva interfere diretamente em funções cognitivas fundamentais, como memória, concentração, raciocínio e tomada de decisão, comprometendo justamente o desempenho nas provas. Quando não recebe a devida atenção, esse quadro também pode acompanhar o estudante para a universidade e para a vida profissional e pessoal”, alerta o coordenador.
O que a escola pode fazer
“No Anglo Alante, compreendemos que a preparação para o vestibular precisa ser construída de maneira integral. O desempenho acadêmico está diretamente relacionado ao equilíbrio emocional, por isso desenvolvemos um trabalho que vai além do conteúdo curricular. Os estudantes contam com acompanhamento próximo da equipe pedagógica, ações de acolhimento, rodas de conversa, orientação sobre organização dos estudos e espaços de escuta que fortalecem a confiança e auxiliam na construção de estratégias para enfrentar esse período com mais segurança”, explica Yan Luz.
Um dos pilares desse suporte é o programa socioemocional LIV — Laboratório Inteligência de Vida. “O LIV oferece aos estudantes um espaço seguro de escuta, diálogo e reflexão sobre os desafios vivenciados ao longo da preparação. Reconhecer e verbalizar o que sentimos é um dos primeiros passos para compreender, acolher e administrar nossas emoções de forma mais saudável”, detalha.
Rotina, família e redes sociais
Para o coordenador, o equilíbrio também depende de hábitos cotidianos. “Estudar por muitas horas sem pausas não é sinônimo de maior aprendizado. Planejamento semanal, metas diárias alcançáveis, intervalos regulares, prática de atividade física, alimentação equilibrada e uma boa qualidade de sono são fatores fundamentais para consolidar a aprendizagem e reduzir os níveis de ansiedade. O descanso não deve ser encarado como perda de tempo, mas como parte do próprio processo de estudo”, afirma.
A família também exerce papel decisivo nesse período. “Demonstrar interesse pelo bem-estar do filho, ouvir suas preocupações sem julgamentos, respeitar seus momentos de descanso e evitar comparações com irmãos, colegas ou outros candidatos são atitudes que fortalecem a autoestima e reduzem a pressão psicológica”, orienta Yan Luz. O coordenador chama atenção ainda para o impacto das redes sociais: “É comum que os estudantes tenham contato apenas com a parte mais produtiva da rotina dos colegas, criando a falsa impressão de que todos estudam mais e estão mais preparados. Essa comparação permanente aumenta a sensação de inadequação e alimenta a ansiedade.”
“Mais do que preparar alunos para conquistar uma vaga no ensino superior, nosso compromisso, enquanto educadores, é contribuir para a formação de jovens capazes de cuidar da própria saúde física e emocional. O verdadeiro sucesso não está apenas na aprovação, mas na construção de uma trajetória acadêmica e profissional sustentável, saudável e equilibrada”, conclui.
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