Entre idealizações e silêncios, a maternidade ainda costuma ser narrada como um território de plenitude absoluta, quase intocável por dúvidas, ambivalências ou frustrações. Mas, na literatura contemporânea, cada vez mais autoras têm tensionado esse imaginário ao expor as múltiplas camadas de ser mãe (ou de não ser), com honestidade, complexidade e, muitas vezes, coragem desconcertante.

 

Neste Dia das Mães, reunimos cinco escritoras que atravessam esse tema por diferentes caminhos, da crônica à poesia, do diário íntimo à dramaturgia, para revelar que a maternidade real é feita não só de amor, mas também de conflito, ausência, desejo, exaustão e reinvenção.

 

Camila Anllelini

 

O primeiro elo de uma pessoa é com a mãe. Pela literalidade do cordão umbilical, passando pela conexão da amamentação, a relação simbiótica de construção de si física e psicologicamente nunca passa incólume à figura materna. Em “De Amor e Outros Ódios” (Editora Patuá, 137 pág.), Camila Anllelini (@camilaanllelini) apresenta uma personagem recorte de suas próprias experiências em uma série de crônicas e cartas à mãe. O livro, que foi semifinalista no Prêmio Jabuti 2024, na categoria de crônicas e também finalista no Prêmio Minuano de Literatura 2024 na categoria narrativas curtas, vem do desejo da autora de que as pessoas possam fazer as pazes com suas contradições. “Cada leitor ou leitora que me procura para dizer que encontrou nas páginas desse livro algo da sua singularidade me faz acreditar um pouco mais nesse trabalho”, explica.

 

Natural de Pelotas, Rio Grande do Sul, Camila Anllelini apresenta em “De Amor e Outros Ódios” um emaranhado da complexidade com a relação materna, a partir da franqueza transparente de uma psicanalista. Radicada no Rio de Janeiro desde os 15 anos, a autora de 35 anos passou por diversas áreas incluindo administração, moda e dança, antes de se encontrar na psicanálise. Com mestrado em Resolução de Conflitos e Mediação pela Faculdade de Psicologia da Universidad Europea del Atlántico, da Espanha, posteriormente seguiu sua formação junto ao Corpo Freudiano Escola de Psicanálise e no fim de 2024 concluiu uma pós graduação em Psicanálise, Arte e Literatura pelo Instituto ESPE. Atualmente é associada ao Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro.

 

Sabrina Alvernaz

Às vésperas do Dia das Mães, data em que o mercado costuma exaltar a maternidade como ápice da realização feminina, a escritora Sabrina Alvernaz lança “Assistida”, obra que se posiciona na contramão dessa narrativa. Em vez de somente celebrar a chegada, acolhe a espera. Em vez de prometer final feliz, assume o risco da incerteza. “Melhor seria publicar se, afinal, eu conseguisse ser mãe. Talvez poucos comprassem um livro sem a promessa de final feliz”, escreve logo nas primeiras páginas, antecipando a aposta que sustenta o projeto: um diário íntimo produzido ao longo de dois anos marcados por tentativas frustradas de engravidar, sem saber até o fim se o desfecho seria positivo ou vazio. “Por cinco anos, fui tentante. Ao me descobrir infértil, fui silenciada por uma dor profunda. Decidi escrever por ser um processo terapêutico para mim, já que eu não conseguia falar sobre o assunto com familiares e amigos. O livro foi gestado durante quase dois anos, enquanto eu vivia as angústias de tentar engravidar e não conseguir”, relata Sabrina.

 

Sabrina Alvernaz é Doutora em Literatura pela UFSC, título obtido em 2023, com tese indicada ao Prêmio CAPES de Tese 2024. Graduada em Letras pela UERJ em 2008 e Mestre em Estudos da Linguagem pela PUC-Rio em 2011, tem mais de dez anos de experiência como pesquisadora e professora em instituições federais. Publicou “Sangue, cauim e cerveja” em 2015 e atuou como roteirista e diretora de curtas-metragens, entre eles “Agahü: o sal do Xingu” (2020). Nascida em Rio Bonito, no Rio de Janeiro, vive atualmente em Laguna, Santa Catarina.

 

Jo Melo [Mães que escrevem]

Após oito anos de estrada, o projeto Mães que Escrevem concretiza um de seus maiores sonhos: a primeira coletânea impressa, intitulada “Escrevivências Maternas”. A obra é fruto do II Concurso Escrevivências Maternas – 2025 e reúne textos de 37 autoras, incluindo as três vencedoras e uma menção honrosa. Com organização da fundadora do projeto, Jo Melo, a antologia é um marco que simboliza a missão do coletivo de criar um espaço de pertencimento e dar voz às múltiplas realidades da maternidade. A obra adota o conceito de “escrevivência”, cunhado pela escritora Conceição Evaristo, como fio condutor. A técnica valoriza narrativas pessoais e coletivas, utilizando uma linguagem afetiva e identitária para explorar as vivências maternas longe dos clichês. Os textos, divididos em capítulos como “O renascimento”, “A travessia do cuidar” e “A rede de apoio”, abordam temas como luto, maternidade atípica, solidão, autocobrança, alegrias cotidianas e a força da mulher-mãe.