Transformar uma atividade feita por prazer em fonte de renda é uma possibilidade cada vez mais comum. No Maranhão, os pequenos negócios representam 95,2% dos empreendimentos ativos, segundo o Sebrae. Em agosto de 2026, o estado contabilizava 146.367 microempreendedores individuais ativos, e somente no primeiro semestre do ano foram formalizados 26.435 novos MEIs.

Da confeitaria à fotografia, passando por artesanato, produção de conteúdo, costura, beleza ou outros serviços, o que começa como hobby pode ganhar clientes e se transformar em negócio. Mas não é raro, especialmente entre quem nunca empreendeu, que as primeiras oportunidades de venda surjam acompanhadas de uma dúvida importante: quanto cobrar?

O especialista em Educação Financeira e professor da Estácio, Paulo Coimbra, explica que o primeiro passo é entender que dominar determinada habilidade não significa, necessariamente, saber administrar um negócio. “Uma pessoa que cozinha bem para a família no final de semana pode ser instigada a abrir um restaurante ou trabalhar com alimentação, mas formular uma estratégia comercial e conduzir as finanças da empresa de forma sustentável vai além de saber temperar a comida”, exemplifica.

Segundo ele, antes de transformar o hobby em empreendimento, é importante analisar o mercado, buscar capacitação e compreender também a parte administrativa da atividade.

Nem tudo é lucro

Um dos erros mais comuns de quem começa a empreender está na formulação do preço. Muitas vezes, o cálculo considera apenas aquilo que foi gasto diretamente para produzir ou oferecer o produto ou serviço.

Coimbra explica que, para precificar um produto ou serviço, é preciso conhecer conceitos como custos, despesas, margem de lucro e preço de venda. “É muito comum uma pessoa acreditar que, comprando um produto por R$5 e vendendo por R$10, estará tendo 100% de lucro, quando, na verdade, não é bem assim”, afirma.

Segundo Coimbra, além da matéria-prima, também podem entrar na conta itens como tempo de trabalho, energia elétrica, deslocamento, embalagens, ferramentas, equipamentos e taxas de plataformas. Isso explica por que definir o preço do seu produto não é uma conta matemática simples. O valor que o cliente percebe naquele produto ou serviço também influencia quanto ele está disposto a pagar.

Para ajudar a decidir quanto cobrar, uma dica de especialista é usar o modelo VRIO, uma ferramenta de análise estratégica que ganhou força na administração a partir das décadas de 1980 e 1990. A metodologia ajuda a avaliar se recursos e capacidades de uma empresa podem se transformar em vantagem competitiva. A sigla VRIO reúne quatro critérios: Valor, Raridade, Imitabilidade e Organização.

Na prática, a análise começa verificando se aquele produto ou serviço oferecido realmente gera valor, isto é, resolve um problema ou melhora a experiência do cliente de alguma maneira. Na sequência, é preciso observar quantos concorrentes conseguem fazer algo semelhante: se poucas pessoas fazem algo parecido, as chances de cobrar mais caro aumentam.

Já a imitabilidade avalia o quanto seria fácil para outras empresas copiarem aquele diferencial. Quanto maior a dificuldade de imitação do produto ou serviço, maior a possibilidade de sustentar a vantagem de mercado por mais tempo. Por fim, entra a organização, etapa que considera a estrutura, equipe, processos, gestão e recursos necessários.

Para o especialista, o comportamento do próprio mercado também ajuda a indicar se o preço está adequado. “A própria demanda de clientes também sinaliza o quanto está disposta a pagar. Transformar um hobby em negócio exige conhecer os próprios custos, organizar as finanças e entender o valor que o mercado enxerga naquele produto ou serviço”, explica.

CONTAS

Outro cuidado importante é não tratar todo o dinheiro que entra com as vendas como valor disponível para uso pessoal. Para o especialista, separar as contas ajuda a entender se a atividade está, de fato, gerando retorno. Também é necessário acompanhar o investimento realizado para começar, como compra de equipamentos, materiais, cursos ou estrutura.

“O empreendedor precisa saber onde cada entrada vai ser aplicada e quanto tempo ele vai passar quitando o investimento que foi feito lá atrás, quando o negócio começou”, orienta ele.