O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou nesta quinta-feira (16) como “injusta” e “descabida” a decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras. Durante coletiva ao lado de ministros e do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ele afirmou que a justificativa apresentada pelo governo norte-americano não condiz com a realidade e garantiu que o Palácio do Planalto prepara medidas para reduzir os impactos da decisão sobre a economia nacional.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a nova tarifa deverá atingir cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado americano, o equivalente a aproximadamente US$ 7,4 bilhões com base no volume comercializado em 2024.

Ao comentar a medida, Alckmin ressaltou que os Estados Unidos acumulam superávit comercial na relação com o Brasil e criticou os argumentos utilizados por Washington.

“A medida é injusta e descabida. Os argumentos partem de uma base totalmente falsa”, afirmou o vice-presidente.

Ele também anunciou que o governo lançará um programa de apoio às empresas afetadas pelo tarifaço. Entre as ações previstas estão iniciativas da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) para ampliar o acesso de produtos brasileiros a novos mercados internacionais.

Governo promete proteger empresas e empregos

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo já possui mecanismos preparados para preservar empresas e postos de trabalho diante dos efeitos das tarifas.

Segundo ele, o Plano Brasil Soberano será reforçado para atender os setores mais impactados, embora o governo avalie que a economia brasileira como um todo não sofrerá impactos generalizados.

Já o secretário-executivo do MDIC, Márcio Elias Rosa, informou que os segmentos de madeira, calçados e açúcar estão entre os mais afetados pelas novas tarifas e que uma das prioridades será acelerar a diversificação dos destinos das exportações brasileiras.

Ele revelou ainda que Brasil e Estados Unidos realizaram reuniões de alto nível a cada dez dias nas últimas semanas para discutir as negociações comerciais, mas destacou que o governo brasileiro recusou qualquer proposta que pudesse comprometer a soberania nacional ou gerar prejuízos relevantes à indústria do país.

Galípolo rebate críticas ao Pix

Durante a coletiva, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também contestou uma das justificativas apresentadas pelos Estados Unidos na investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), que cita o Pix como um suposto fator de prejuízo para empresas americanas.

Galípolo afirmou que o sistema brasileiro de pagamentos continuará sendo gratuito, seguro e instantâneo, destacando que sua criação ampliou a inclusão financeira e beneficiou consumidores e empresas.

Como exemplo, ele ressaltou que o uso dos cartões de pagamento cresceu cerca de 150% desde a implantação do Pix, contrariando a tese de que o sistema teria prejudicado o setor financeiro.

Fazenda fala em interferência externa

Dario Durigan também criticou a decisão do governo americano e classificou a medida como uma interferência indevida na política econômica brasileira.

Segundo ele, decisões dessa natureza afetam consumidores, trabalhadores e empresários dos dois países e não devem servir como instrumento de pressão política sobre o Brasil.

Mauro Vieira reage a críticas de Marco Rubio

Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, respondeu às declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de não negociar “de boa-fé” com Washington.

Vieira classificou as falas como “grosseiras”, “arrogantes” e “inaceitáveis”. O chanceler afirmou que, desde março de 2025, Brasil e Estados Unidos realizaram mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone em diferentes níveis de governo para buscar uma solução negociada para o impasse comercial.

Governo anuncia reação em três frentes

Em nota divulgada na madrugada desta quinta-feira, o Palácio do Planalto classificou a decisão dos Estados Unidos como “unilateral”, “ilegal” e “arbitrária”. O governo informou que acionará os mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica e voltará a recorrer ao sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A estratégia brasileira será baseada em três eixos principais: ampliar a abertura de novos mercados internacionais, fortalecer o Plano Brasil Soberano para apoiar empresas prejudicadas e adotar medidas de reciprocidade contra barreiras comerciais consideradas injustificadas.

O comunicado também rebateu as justificativas apresentadas pelo USTR sobre o Pix, a regulação das plataformas digitais e o desmatamento, classificando as alegações como infundadas. Além disso, o governo citou dados do próprio governo americano para afirmar que os Estados Unidos acumulam superávit de US$ 424,5 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos.

Na parte final da nota, o Planalto fez críticas à família Bolsonaro, acusando aliados do ex-presidente de colaborarem politicamente para o avanço da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos.