Em um cenário em que carreira e maternidade deixaram de seguir uma lógica linear, empresas começam a incorporar novas soluções para responder a essa transformação, e o congelamento de óvulos passa a ganhar espaço como benefício corporativo. A discussão ganha ainda mais relevância no contexto do Dia das Mães, ao evidenciar como o tema da maternidade vem sendo ressignificado dentro e fora das organizações.

O avanço desse tipo de benefício acompanha uma mudança demográfica relevante. Dados do IBGE mostram que a idade média das mulheres ao se tornarem mães no Brasil subiu de 25,3 anos em 2000 para 27,7 anos em 2020, chegando a 28,1 anos em 2022. Ao mesmo tempo, a proporção de mães com até 24 anos caiu de 31,1% em 2003 para 23,6% em 2023, indicando que os nascimentos estão cada vez mais concentrados em idades mais avançadas.

A tendência deve se intensificar nas próximas décadas, e as projeções do instituto apontam que a idade média da maternidade pode chegar a 31,3 anos até 2070, refletindo mudanças estruturais como maior escolaridade, inserção das mulheres no mercado de trabalho e planejamento familiar.

Para Phillip Wolf,     especialista em reprodução humana e sócio-fundador da clínica Genics, o movimento sinaliza uma mudança estrutural na relação entre empresas e colaboradores. “A gente está diante de uma mudança na relação entre carreira e maternidade. Não é mais uma decisão linear, e as empresas começam a perceber que, se não acompanharem esse movimento, perdem competitividade na atração e retenção de talentos femininos.”

Na prática, o congelamento de óvulos passa a integrar uma nova lógica de benefícios corporativos, mais voltada à individualização e ao ciclo de vida do colaborador. A tendência acompanha o que já acontece no mercado internacional, onde empresas como Google e Meta passaram a incluir o procedimento em seus pacotes de benefícios, influenciando a adoção gradual em outros mercados, incluindo o Brasil.

Benefícios atraentes

Atualmente, as maneiras que as companhias encontram para estruturar esse tipo de iniciativa passam pela contratação de fornecedores especializados, como clínicas de reprodução humana parceiras. Além disso, incluem coberturas em planos de saúde específicos, subsídios e políticas de reembolso.

Nesse contexto, na opinião de Phillip Wolf, a tendência é que os benefícios corporativos evoluam para soluções mais alinhadas aos diferentes momentos de vida dos profissionais. “O que a gente começa a ver é uma sofisticação no que se oferece ao colaborador. Eles deixam de ser genéricos e passam a refletir decisões importantes da vida das pessoas. Nesse cenário, programas de apoio à maternidade, que podem incluir o congelamento de óvulos, tendem a ganhar espaço como diferencial competitivo”, comenta.

Apesar do avanço, o tema ainda carrega desafios importantes. O custo do procedimento pode ultrapassar R$ 15 mil por ciclo, o que historicamente limitou o acesso a um público mais restrito. No entanto, clínicas especializadas já vêm estruturando modelos mais flexíveis, com opções de parcelamento e condições facilitadas, ampliando gradualmente a viabilidade para empresas e pacientes.

“O custo ainda é um ponto de atenção, mas o mercado já começou a se adaptar. Hoje, existem formatos mais flexíveis, com parcelamentos e modelos viáveis tanto para empresas quanto para pacientes. Isso tende a acelerar a adoção do benefício nos próximos anos”, explica Wolf.