O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio de R$ 6,1 milhões em bens do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos-MG). A medida faz parte da investigação que apura um suposto esquema de direcionamento irregular de emendas parlamentares, mesmo após o ex-deputado deixar o mandato.
A decisão foi assinada em 6 de julho. No mesmo despacho, Dino também ordenou o bloqueio de mais de R$ 119 milhões em bens do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Segundo a Polícia Federal, ambos teriam participado de um esquema para influenciar a destinação de recursos públicos utilizando servidores da Câmara dos Deputados, apesar de não ocuparem cargos parlamentares.
De acordo com a investigação, Eduardo Cunha teria participado da indicação de pelo menos 29 emendas parlamentares, posteriormente suspensas pelo STF. A Polícia Federal afirma que a operacionalização dessas indicações era feita por Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, assessora da Presidência da Câmara.
Ao justificar a medida cautelar, Flávio Dino destacou que as provas reunidas apontam para uma atuação direta de Cunha no suposto esquema.
Segundo o ministro, mensagens trocadas por aplicativos e planilhas compartilhadas entre os investigados indicam que o ex-deputado, mesmo sem mandato, teria comandado o redirecionamento de recursos públicos, especialmente com foco em fortalecer sua pré-candidatura à Câmara dos Deputados por Minas Gerais.
As investigações apontam ainda que Cunha tratava diretamente da destinação das emendas que, oficialmente, eram atribuídas ao deputado federal Gilberto Abramo (Republicanos-MG). Para a PF, o ex-presidente da Câmara coordenava as operações e mantinha interlocução constante com Tuca, responsável por organizar e controlar as cotas destinadas aos parlamentares.
PF aponta “cota informal” para distribuição de recursos
Os investigadores afirmam que as conversas analisadas revelam a existência de uma espécie de “cota informal” de emendas administrada por Eduardo Cunha, com alterações frequentes de municípios beneficiados conforme seus interesses políticos.
O relatório da PF destaca que diversas indicações foram modificadas por orientação direta do ex-deputado, inclusive em municípios de Minas Gerais, estado pelo qual pretende disputar uma vaga na Câmara em 2026.
Segundo a corporação, o fato chama atenção porque Cunha não possui histórico de atuação política no estado e, em alguns diálogos, demonstra até mesmo distanciamento de lideranças locais.
Para os investigadores, Mariângela Fialek desempenhava papel central na execução das demandas. O relatório sustenta que ela não atuava apenas como executora, mas também como consultora e facilitadora das orientações repassadas pelo ex-parlamentar, adaptando as indicações das emendas para dar aparência de legalidade às operações.
A PF também afirma haver indícios de que a servidora contava com respaldo da Presidência da Câmara para realizar os procedimentos investigados.
Conversas reforçam suspeitas
Entre os diálogos citados pela investigação está uma troca de mensagens de setembro de 2025, na qual Eduardo Cunha demonstra preocupação com uma emenda destinada ao município de Manhuaçu (MG).
Na conversa, o ex-deputado solicita que fosse produzido um ofício em nome do deputado Gilberto Abramo para confirmar oficialmente a autoria da emenda, evitando questionamentos políticos sobre a origem dos recursos.
Dias depois, segundo a investigação, Cunha determinou a substituição do município beneficiado para encerrar a controvérsia.
Para a Polícia Federal, as mensagens indicam um mecanismo utilizado para ocultar o verdadeiro responsável pelas indicações das emendas, atribuindo formalmente os recursos a parlamentares em exercício.
Defesa nega irregularidades
Em nota, a defesa de Eduardo Cunha negou qualquer participação irregular na indicação de emendas parlamentares. Os advogados afirmam que todos os recursos investigados foram oficialmente apresentados por parlamentares ou órgãos competentes e sustentam que não houve exercício clandestino de mandato.
A defesa informou ainda que recorrerá da decisão do STF e criticou a interpretação da investigação, alegando que interlocuções políticas não podem ser confundidas com atuação parlamentar irregular.
Para a Polícia Federal, entretanto, os elementos reunidos até o momento indicam que Eduardo Cunha continuava exercendo influência significativa sobre a destinação de recursos públicos, mesmo fora do Congresso Nacional.
Segundo o relatório, a atuação do ex-presidente da Câmara teria causado prejuízos ao erário e representaria um dos mais graves desvios relacionados ao chamado orçamento secreto, ao permitir que um agente sem mandato interferisse diretamente na distribuição de verbas públicas.
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